VIII - A Escolha dos Guias

1st Mirtul, 2.00pm

- Então e agora? – Hiro ficou a ver o anão a sair determinado da estalagem.

- Agora vamos ver como será o próximo guia. – Ivan olhou para o anúncio de Musharib. – Kort, precisamos que tragas cá o Musharib, vamos ver se será este o guia certo.

Assentido, saí de novo para a cidade em busca do próximo guia. Ao sair deparo-me com Hew à minha espera fora da Thundering Lizard.

- Caríssimo Anão! Peço imensa desculpa pela forma como saí, mas os seus companheiros não me deram alternativa. Não ia ficar ali para ser insultado por aquela gente que duvida de tudo.

- Compreendo meu caro companheiro. Mas creio que já percebeu que me juntei recentemente à companhia e por isso ainda não tenho muito poder de decisão junto deles.

- Claro que compreendo Senhor Kort. – Hew acendeu o cachimbo e caminhou junto a mim. – Calculo que agora vá convocar outro guia depois desta minha saída dramática?

- É isso mesmo Senhor Hew. Vou agora mesmo buscar Musharib.

- Ah! Esse verme pálido! – Hew cuspiu resignado para o chão. – Ele pode ser um anão, mas não é boa peça. Disso lhe garanto! Mas se são essas as suas intenções e as da sua companhia quem sou eu para me intrometer nelas?

- São maioritariamente decisões da companhia. Como lhe disse ainda não tenho voz nas decisões do grupo. No entanto, se tivesse a minha escolha já estaria feita.

- E que quer isso dizer exatamente?

- Quer dizer que não precisaria de ir agora chamar o Musharib.

- Ah! – Hew agarrou-me fortemente pelo ombro com o braço enquanto apertava o cachimbo entre os dentes. – Amigo anão! Eu vi logo quando olhei para si que podia contar consigo. Vá lá então chamar o Musharib. Mas depois não se esqueça de interceder por mim quando for altura de decidir. - e piscando um olho, Hew abandonou-me de regresso à sua casa.

 

Continuei o meu caminho. Percorrendo as ruas de Port Nyanzaru mais uma vez. Musharib é até um dos guias da cidade mais fácil de localizar. O seu apetite pelo conforto de uma fina taberna é famoso na cidade. É mais do que certo que o encontrarei na Kaya’s House of Repose, a estalagem rival da Thundering Lizard. Com comodidades maiores e preços ainda mais elevados.

Paro em frente ao pomposo edifício de três andares. Inúmeras bandeirolas bordadas a ouro ondulam nas fachadas, além disso à entrada somos recebidos por um discreto halfling que em troca de algumas peças de ouro em avanço nos consegue garantir certas comodidades na estalagem.

-Boa tarde gentil anão! – o halfling ajeitou-se na alta cadeira que ocupava à entrada. – O que o traz por cá?

- Olá meu caro! – parei olhando para cima para o pequeno halfling no seu posto. – Venho convocar Musharib para uma reunião. Sabe dizer-me se ele está por cá?

- Está sim! – o halfling pulou para o chão. – Quer que o chame?

- Claro que sim!

Passados poucos instantes o halfling apareceu seguido por um pálido anão de barbas brancas, as suas vestes decoradas com inúmeros ossos de dinossauro evidenciavam os muitos encontros que este teria tido nas selvas de Chult.

- Olá caro anão! – Musharib fez uma pequena vénia. – Sei que me convoca, mas ainda não sei o seu nome.

- Kortmorinn. Arqueólogo, cartógrafo e aventureiro. – bati com o punho no peito enquanto me apresentava. – Faço parte de uma companhia de aventureiros e procuramos um guia.

- Bem meu caro. Parece-me que esta vai ser uma reunião produtiva! -Musharib falou quase de si para si.

Encaminhei-me para a Thundering Lizard seguido por Musharib que resmungava contra a falta de classe do local para onde nos encaminhávamos.

- Antes de entrarmos, diga-me uma coisa Senhor Kortmorinn. – Musharib sussurrou. – Já se reuniram com mais algum guia?

- Já sim. Hew Hackinstone esteve aqui antes de si.

- Bem… - Musharib murmurou novamente algo entredentes enquanto afagava as compridas barbas. – Vamos lá então?

Entramos na estalagem onde o grupo continuava a beber e a comer. A pilha de canecas vazias aumentava na mesa junto à nossa a olhos vistos. Hiro seguira o conselho de Hew e deixara de lado o leite de dinossauro, estando agora a bebericar uma cerveja.

- Finalmente que chegaste Kort. Já estávamos fartos de esperar por ti! Por onde andaste este tempo todo?

- Creio que não demorei assim tanto tempo Hiro.

- Olha que eu acho que sim. – o Aasimar estava claramente embriagado. – E então quem é esse teu parente que trazes contigo?

- O meu nome é Musharib e se não fui mal informado, foram os senhores que me convocaram até aqui, solicitando que eu fosse o vosso guia na aventura que pretendeis executar.

- Foi? – Hiro sorveu mais um pouco de cerveja.

- Foi sim Hiro. – Ivan interveio. -E para de beber cerveja, vê-se claramente que não aguentas o álcool, nunca devias ter parado de beber leite de dinossauro. – Ivan levantou-se no lugar. – Musharib, peço imensa desculpa pelo comportamento do nosso companheiro. Claramente a bebida tolda-lhe os sentidos.

- Compreendo totalmente! A emoção da aventura pede sempre mais uma cerveja e por vezes passamos dos limites. – Musharib sentou-se – Há anos que não bebe álcool por essas mesmas razões. Vamos então discutir os assuntos que me trouxeram a esta má casa? Não faço intenções de aqui estar muito tempo.

- Com certeza meu caro! – Ivan recostou-se na cadeira. – Necessitamos de um guia que nos leve em segurança pelas selvas de Chult.

- Certíssimo! Os meus honorários são de cinco peças de ouro por dia, pagas ao nascer do sol.

- Então e se nos perdermos? Vamos estar a pagar um dia para acabarmos por ir parar a lado nenhum?

- Compreendo as suas dúvidas, mas digo-vos já que isso é pouco provável de acontecer. No entanto e já que me parece que tenciona discutir o meu trabalho, digo-lhe já que não regateio preços ou faço qualquer tipo de negócios. Esses tipos de esquemas não funcionam comigo. – Musharib puxou uma cadeira vaga para junto de si. – E o caro Kortmorinn não se senta companheiro? Gostava muito de o ouvir nesta discussão.

- O Senhor Kortmorinn juntou-se recentemente à expedição. Lamento informar que ainda não tem poder de decisão junto do nosso grupo.

Musharib não respondeu a Ivan e ficou a olhar para mim fixamente com um olhar duvidoso.

- É como o Senhor Ivan diz. – retorqui e afastando-me da mesa saí da estalagem. No entanto, a fim de matar a curiosidade, aproximei-me da janela que ficava junto à nossa mesa, podendo assim escutar o desenrolar da discussão.

- Inaceitável! Essa decisão é um ultraje. Não posso permitir que tal coisa aconteça. – a voz de Musharib exaltava-se contra os argumentos de Ivan. – Não irei permitir que anão algum seja maltratado na minha presença. Aliás recuso-me a trabalhar para os senhores enquanto o Mestre Kortmorinn não tiver voz nesta companhia.

- Como já lhe expliquei Musharib. O Mestre Kortmorinn só se juntou ontem a nós. Como tal, ainda terá de nos provar que é de confiança antes sequer de poder ganhar voz para decidir alguma coisa entre nós.

- Vocês deviam estar gratos por terem a oportunidade de ter um anão na vossa companhia. Não há melhor companheiro que um anão.

- Pode argumentar o que quiser Musharib. A nossa decisão é final. Agora se fizer o favor, quando sair, diga ao Kortmorinn para entrar pois preciso de falar com ele.

 

1st Mirtul, 4.00pm

Depois de Musharib sair. Eu e Ivan trocamos algumas palavras no interior da taberna, ainda que ainda sem voz decisiva, foi tida a minha opinião relativamente aos guias em conta. Acabei por sair novamente com o objetivo de trazer Hew Hackinstone para reunir novamente com o grupo. Assim que chegámos novamente à estalagem, Ivan levantou-se e recebeu o guia com renovada cordialidade.

- Caro amigo. Foi-se embora sem que tivéssemos a oportunidade de perguntar sequer metade do que queríamos saber e nem chegámos a negociar.

Hew olhou para aquele alto homem, perscrutando o fundo dos seus olhos.

- Têm razão. Não fui correto nesta negociação. -Hew sentou-se junto a Ivan e agarrou novamente uma caneca com cerveja. – Que mais precisam de saber?

- Pergunta prática. Digamos que estamos perdidos no meio da selva, de que forma nos poderá orientar e que técnicas utilizaria para encontrarmos o caminho de volta?

- Primeiro que tudo. Se fosse eu, o vosso guia, nunca nos perderíamos! Segundo, as técnicas e segredos de orientação são propriedade do guia e por isso em nada desse tema vos posso adiantar de momento.

- Ótimo ponto de vista Hew!

- Já agora… - Hew recostou-se na cadeira. – Posso agora, eu fazer-vos uma pergunta?

- Claro que sim meu caro.

- Que assuntos levam os senhores às selvas de Chult?

- Isso meu caro. É uma pergunta que só poderemos responder ao nosso guia.

- Então parece que está decidido! Eu vou guiar-vos pelas selvas de Chult.

- Poderá ser que assim seja. Mas ainda temos de discutir a problemática dos preços.

- Bem! Como tiveram acesso ao anúncio sabem já à partida os valores que cobro, no entanto tenho uma proposta para vos fazer.

- Muito bem! – Ivan olhou o guia com curiosidade. – Estamos a ouvi-lo.

- Para começar, não irei cobrar nenhum honorário em avanço. Mantenho o meu preço de cinco peças de ouro por dia, mas estas ser-me-ão apenas pagas ao final de três dez-dias. No entanto, se os nossos caminhos se cruzarem com Tinder e se me ajudarem a vingar o meu grupo e o meu braço. Terão a minha eterna gratidão e com ela a isenção de qualquer pagamento devido. Além disso, devolverei qualquer pagamento feito até então.

Ivan olhou demoradamente o anão. Do local onde assistia à reunião pude ver um sorriso a formar-se ao canto da boca do humano.

- Meu caro. – Ivan esticou a mão. – Considere-se o guia deste grupo.

- Ah! Muito Obrigado! – Hew apertou firmemente a mão de Ivan e após isso e quanto se levantava deu algumas pancadas a Hiro e Ahoy que dormiam sobre a mesa. – Não se vão arrepender da vossa escolha. Espero-vos daqui a dois dias no junto a Dinosaur Pens ao nascer do sol. Têm o dia de amanhã para se prepararem. Sugiro que comprem mantimentos e repelente, muito repelente.

- Assim faremos. – X quebrou finalmente o silêncio, levantou-se e começou a subir as escadas em direção ao seu quarto.

Hew dirigiu-se à saída e mesmo antes de sair, segurando a porta com o seu único braço, passou os olhos por todos nós, voltando a repetir. – Não se vão arrepender! – e deixando a porta bater, saiu da taberna a trautear uma melodia enquanto um novo brilho se acendia no seu olhar.


 

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