VII - O Melhor Guia de Chult

 1st Mirtul, 12.00am

Parto da Thundering Lizard enquanto analiso mentalmente a proposta que me foi feita. Não é uma boa proposta. No entanto cumpre as minhas necessidades para já. Terei auxílio na selva e mais do que isso poderei até descobrir a cidade anã perdida. Poderei talvez negociar a minha participação na divisão dos espólios durante a expedição.

O grupo encarregou-me de procurar e trazer até eles, guias autorizados pelo Jobal. Sucede que depois de alguma negociação e discussão foi acordado que os melhores candidatos seriam Hew Hackinstone ou Musharib, dois grandes anões desta terra. Fabulosos guerreiros e conhecedores dos perigos da selva. Além disso consta também que realizaram grandes feitos, quase heroicos.

Não sei quais os critérios que o grupo terá em conta para escolher o guia, mas também serão um pouco indiferentes, visto as duas possíveis escolhas serem dois grandes representantes da raça anã.

Percorro rapidamente as ruas que me levam ao meu destino. Hew Hackinstone reside no pacato bairro junto ao porto, logo acima do grande Coliseu. Agora que olho para esta construção, ainda me parece mais imponente. Este monumento dedicado às corridas de dinossauros tem a capacidade para albergar centenas de espetadores e apoiantes das mesmas. Na sua construção, além das inúmeras referências e decorações alusivas aos dinossauros e aos seus corredores, existem também algumas pinturas quase apagadas que contam histórias sobre lutadores. Há relatos que dizem que há muito tempo o coliseu era utilizado para grandes eventos de luta. Diz-se que antes da modalidade de gladiador ser proibida em Chult, havia torneios que duravam dias e que muitas envolviam a luta contra dinossauros e outras bestas.

Paro por fim em frente a uma tosta e torta porta de madeira, a casa de Hew é bastante conhecida no bairro, pois o letreiro afixado por cima da arcada faz anunciar “O Melhor Guia de Chult”. Parece-me que foi mesmo uma boa seleção. Se é o melhor guia de Chult, provavelmente não teremos de procurar mais. Bato audivelmente à porta e esta é-me aberta por um anão de porte ligeiramente maior que o meu. Barbas loiras já com alguns vestígios de pelo grisalho caem-lhe pela face enquanto descem até ao peito com uma trança ao centro adornada com um pequeno anel de metal.

- Hew Hackinstone ao seu serviço! – o anfitrião saúda-me audivelmente enquanto bate três vezes com a mão fechada sobre o peito, como é costume na tradição anã o cumprimento entre membros da nossa raça. -  Em que posso ajudá-lo amigo?

- Caro amigo anão, o meu nome é Kortmorinn e faço parte de um grupo de aventureiros que procuramos um guia que nos leve pelas selvas de Chult.

- Ah! Então vieram ao sítio certo! – Hew colocou a cabeça fora da porta. – E onde estão esses seus companheiros?

- Estão na Thundering Lizard. Estamos lá hospedados e por lá temos estado a conviver e a beber. Vim convocá-lo para que se reúna connosco e possamos assim discutir as possibilidades de nos guiar.

- Beber e comer na Thundering Lizard? – Hew rapidamente pegou no seu machado que colocou ao cinto. – Não há melhor forma de discutir negócios meu caro, lá isso é verdade. – fechando a porta, o possante anão acompanhou-me de volta à estalagem.

O caminho foi percorrido rapidamente. A promessa de comida e bebida incentivou o passo do meu parente anão. Quando chegámos à estalagem, o grupo continuava a conferenciar, enquanto reavaliavam os dois descritivos dos guias, tendo o cuidado de apenas deixarem visível o anúncio de Hew quando nos aproximámos.

- Foi aqui que convocaram o melhor guia de Chult?

- O melhor? – Hew recostou-se na cadeira. – Acho que apenas dizê-lo não o faz ser verdade.

- É verdade sim. - intervim prontamente, não podendo deixar de defender a honra da causa e da raça anã.

- HaHaHa! – Hew sentou-se enquanto dava uma enorme gargalhada. – Ah! A juventude de hoje em dia e a sua falta de paciência. – Hew examinou algumas das canecas pousadas na mesa. – Alguém me pode dizer onde está a minha cerveja?

- A sua cerveja chegará assim que concluirmos a nossa negociação.

- Amigo! – Hew aproximou-se de Hiro. – Não há negociação, enquanto não houver cerveja, e digo-lhe mais, essa porcaria de leite dinossauro que está a beber só lhe faz mal. Se soubesse como é feito, prontamente largaria o vicio de beber tal coisa.

- Vá! Tragam lá mais uma rodada! – Ahoy acenou a Leya, a franzina empregada de balcão. – Amigo, enquanto a sua bebida não chega, pode terminar a minha cerveja.

- Bem, já vi que pelo menos os nativos desta ilha são capazes de se dar ao respeito.

- Como sabe que sou daqui? Conhece os meus pais? Sabe onde estão? – o Goliath estava já visivelmente embriagado, e depois desta estranha indagação, deixou a cabeça cair sobre a mesa e adormeceu no lugar.

- Ehh lá! Este companheiro não aguenta muito bem a bebida rapazes! – Hew pegou o resto da cerveja de Ahoy. – Com meia caneca fica logo assim.

- Ah! Mas ele não bebeu só meia caneca. – Ivan apontou com o queixo para a mesa do lado, cujo tampo já mal se via, tapado com canecas, jarros e dois pequenos barris vazios. – Obrigado Kort! – Ivan entregou-me finalmente a bolsa de moeda que estava por fim, infelizmente vazia, a minha cara de espanto era visível a todo o grupo.

-Amigo, parece-me que pagou deveras muita bebida ao seu companheiro. – Hew ria-se divertido. – E parece que afinal o tipo até se aguenta bem melhor que eu até.

A cerveja chegou finalmente à mesa. Hew virou a sua caneca de um trago e pegou na caneca do adormecido Ahoy, tratando então de a beber tranquilamente.

- Vamos então negociar? Vejo que já têm o meu anúncio, por isso digam-me que mais precisam de esclarecer?

- Primeiro que tudo caro anão, queremos saber o que lhe aconteceu ao braço.

- O braço? Ah! Sim! - Hew tocou no coto que lhe restava do braço esquerdo. - É uma longa história meus caros, mas resumindo, o meu braço foi comido por Tinder, o maior dragão vermelho que existe em Chult. O dragão domina tanto selva como montanha. Um dia hei de regressar ao seu covil para me vingar desta perda e pela morte dos meus companheiros.

- Quer dizer que o caro Hew lutou contra um dragão? - Hiro questionou o nosso guia demonstrando algumas dúvidas sobre a história que ouvira.

- Lutei, e trago comigo todos os dias a prova dessa batalha e dessa derrota.

- Muito bem! Digamos que acredito em si. Como nos pode um anão com um braço a menos valer no meio desta selva?

- Como? Eu digo-vos como. - e num rápido movimento, Hew colocou com ímpeto e estrondo o seu machado sobre a mesa. - Tinder levou-me o braço, mas em nada me levou da vontade de viver ou de lutar. O meu sentido de orientação está todo aqui. - Hew deu dois toques com o indicador na fronte. - Além disso, luto muito melhor do que qualquer pessoa nesta cidade. Por isso, se quiserem ser guiados por mim já sabem qual o custo, se não quiserem, não empatem a minha vida! - dito isto, Hew levantou-se e saiu.

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