VI - Negociação

Greengrass, 6.00pm

Quando chegámos à estalagem, Hiro já se encontrava de volta à nossa mesa. Alheio a tudo, imerso nas páginas do seu novo livro, bebericava uma quase vazia caneca de leite de dinossauro.

- Por onde andaram rapazes?

- O X foi atacado e acabámos numa perseguição desenfreada ao seu atacante. - respondi prontamente, tentando mostrar-me útil ao grupo.

- Ahh! Já começámos a encontrar perigos e ainda nem saímos da cidade. - Hiro exibiu uma expressão tanto ou quanto enfadada. - Nem quero saber como será quando sairmos para a selva!

- Posso-lhe dizer que a experiência na selva é horrível, meu caro! Estou cá há quase duas semanas e das poucas vezes que saí consigo assegurar-lhe que os perigos que se encontram lá fora são terríveis.

- Acredito que sim! Mas refresque-me a memória caro Anão. Onde íamos nós na nossa conversa sobre a possibilidade de o senhor nos guiar nesta selva?

- Íamos discutir, creio eu, as condições de tal situação.

Nesse momento Ivan levantou-se e trouxe um monte de anúncios que estavam afixados à entrada da estalagem.

- Não sei se será boa ideia o senhor Kortmorinn guiar-nos. Visto que nem é um guia autorizado pelo Jobal. - Ivan espalhou os anúncios de guias pela mesa. - Não é verdade?

- É verdade sim senhor! Estou aqui há duas semanas, vim para cá com um propósito também. Claro que não sou um guia quanto menos autorizado pelo grande Jobal. No entanto creio que poderemos negociar a minha entrada na vossa companhia e partir convosco na vossa aventura. Que me dizem?

- Não sei meu caro. Depois do que vi na corrida, tenho muitas dúvidas sobre a sua utilidade na nossa missão e além do mais, há a questão da divisão dos espólios. - Ivan organizava e selecionava, um a um, os anúncios dos guias de Chult. – Que se formos a ver bem, será um pouco inconveniente, se é que me entende?

- Compreendo claramente tal questão, mas pensem cá comigo. Se eu for convosco não terão de pagar a um guia e assim poupam algum dinheiro também, e além disso o meu objetivo na selva é encontrar a cidade anã perdida.

- Ainda bem que refere isso. Pois certamente usarei esse argumento contra si mais tarde nesta discussão. Para já quero saber como é que alguém que diz ser um grande aventureiro como você e com capacidades de orientação que afirma ter não foi capaz de se aventurar na selva nestas quase duas semanas que cá está.

- Caro Hiro isso é muito fácil e simples de responder. Não queria morrer, é a resposta correta. Há inúmeros perigos lá fora e a minha orientação é boa mas não impede que um dinossauro me coma, ou que não seja perseguido por cobras, lagartos, flying monkeys, ou sabe-se lá mais o quê. – acendi o cachimbo e inalei uma boa dose do meu tabaco favorito. - Vocês já se cruzaram algum vez com estas bestas? Creio que não! Pois se o tivessem feito, a vossa opinião seria muito diferente.

- Acredito perfeitamente no senhor, Kortmorinn! Nunca vi tais bestas e espero demorar algum tempo até me cruzar com elas, no enanto, fiquei curioso com o que tem a oferecer. Qual é então a sua proposta?

- Proponho o seguinte. Acompanho-vos na vossa aventura, cedo-vos as minhas habilidades de cartografia e orientação e em troca, procuramos também a cidade anã, enquanto exploramos as selvas de Chult em busca da origem dessa maldição que procuram.

- Muito bem! - Hiro assentiu vigorosamente, enquanto o fazia piscou o olho a Ivan. – o senhor disse-me há instantes que do pouco que percorreu na selva, já tinha conseguido cartografar alguma coisa. Poderemos também ver esses esboços?

- Podem sim meus senhores. - tirei o meu bloco de desenho de um dos bolsos e mostrei os pequenos mapas e trajetos que tinha já cartografado. - Não é muito, mas é o que me foi possível cartografar dado os perigos existentes.

O grupo pegou nos meus esboços e examinou-os durante algum tempo e ao fim desse tempo recusaram a minha proposta. Alegaram que os mapas não estavam bem desenhados, que a orientação era falível e que o conteúdo era escasso.

- Amigo! Você chama mapa a estes rabiscos? Já vi cavalos desenharem melhor e olhe que eles nem conseguem pegar em pena.

- Não percebo o seu comentário! E além disso não concordo. Percebe-se claramente no mapa a localização da cidade e os seus portões e o início da selva.

- Sim claramente! E o interior da selva? Como são os seus trilhos? Onde passam os caminhos? Os pontos de referência? - Hiro atirou o caderno de volta à mesa. - Não se percebe patavina disto senhor! Mas não vamos deitar tudo a perder pois tenho uma nova proposta para si.

- Muito bem. Sou todo ouvidos.

- Nós deixamos que o senhor nos acompanhe na nossa aventura.

- Olhe aí está uma boa proposta.

- Calma Senhor Kortmorinn! Ainda não terminei. Nós permitiremos que nos acompanhe na nossa aventura. Claro que para a fazermos iremos precisar de um guia. Guia esse que você também vai pagar, irá dividir o custo connosco e ...

- Dividir o custo do Guia? – inalo mais uma vez pelo meu cachimbo quase apagado, enquanto pondero tal proposta. - Bem não me parece descabido de todo...

- Mas oiça a proposta até ao fim senhor! Além de tudo o que já disse, não vai poder usufruir da partilha de nenhum tesouro que encontrarmos, nem o seu nome poderá ser associado a qualquer demanda em prol do término da maldição da morte. Como diz que o seu único objetivo é encontrar a cidade anã, o único espólio sobre o qual terá direito será a um quinto das riquezas encontradas na cidade anã. Isto, se encontrarmos tal coisa.

Tentei discutir. Renegociar. Fazer valer as minhas qualidades de cartógrafo, arqueólogo, historiador e anão e nada me valeu. Aceitei a proposta que me fizeram. Não é uma boa proposta, mas foi a única possível.

Como estou em Chult há mais tempo fiquei responsável, dizem eles, por chamar os guias. A mim soa-me a mais trabalho de moço de recados e ainda por cima sem receber, mas pronto, parece-me que não tenho outra escolha.

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