Quando chegámos à
estalagem, Hiro já se encontrava de volta à nossa mesa. Alheio a tudo, imerso
nas páginas do seu novo livro, bebericava uma quase vazia caneca de leite de
dinossauro.
- Por onde andaram
rapazes?
- O X foi atacado e
acabámos numa perseguição desenfreada ao seu atacante. - respondi prontamente,
tentando mostrar-me útil ao grupo.
- Ahh! Já começámos a
encontrar perigos e ainda nem saímos da cidade. - Hiro exibiu uma expressão
tanto ou quanto enfadada. - Nem quero saber como será quando sairmos para a
selva!
- Posso-lhe dizer que a
experiência na selva é horrível, meu caro! Estou cá há quase duas semanas e das
poucas vezes que saí consigo assegurar-lhe que os perigos que se encontram lá
fora são terríveis.
- Acredito que sim! Mas
refresque-me a memória caro Anão. Onde íamos nós na nossa conversa sobre a
possibilidade de o senhor nos guiar nesta selva?
- Íamos discutir, creio
eu, as condições de tal situação.
Nesse momento Ivan
levantou-se e trouxe um monte de anúncios que estavam afixados à entrada da
estalagem.
- Não sei se será boa
ideia o senhor Kortmorinn guiar-nos. Visto que nem é um guia autorizado pelo
Jobal. - Ivan espalhou os anúncios de guias pela mesa. - Não é verdade?
- É verdade sim senhor!
Estou aqui há duas semanas, vim para cá com um propósito também. Claro que não
sou um guia quanto menos autorizado pelo grande Jobal. No entanto creio que
poderemos negociar a minha entrada na vossa companhia e partir convosco na
vossa aventura. Que me dizem?
- Não sei meu caro.
Depois do que vi na corrida, tenho muitas dúvidas sobre a sua utilidade na
nossa missão e além do mais, há a questão da divisão dos espólios. - Ivan
organizava e selecionava, um a um, os anúncios dos guias de Chult. – Que se
formos a ver bem, será um pouco inconveniente, se é que me entende?
- Compreendo claramente
tal questão, mas pensem cá comigo. Se eu for convosco não terão de pagar a um
guia e assim poupam algum dinheiro também, e além disso o meu objetivo na selva
é encontrar a cidade anã perdida.
- Ainda bem que refere
isso. Pois certamente usarei esse argumento contra si mais tarde nesta
discussão. Para já quero saber como é que alguém que diz ser um grande
aventureiro como você e com capacidades de orientação que afirma ter não foi
capaz de se aventurar na selva nestas quase duas semanas que cá está.
- Caro Hiro isso é muito
fácil e simples de responder. Não queria morrer, é a resposta correta. Há
inúmeros perigos lá fora e a minha orientação é boa mas não impede que um
dinossauro me coma, ou que não seja perseguido por cobras, lagartos, flying
monkeys, ou sabe-se lá mais o quê. – acendi o cachimbo e inalei uma boa dose do
meu tabaco favorito. - Vocês já se cruzaram algum vez com estas bestas? Creio
que não! Pois se o tivessem feito, a vossa opinião seria muito diferente.
- Acredito perfeitamente
no senhor, Kortmorinn! Nunca vi tais bestas e espero demorar algum tempo até me
cruzar com elas, no enanto, fiquei curioso com o que tem a oferecer. Qual é
então a sua proposta?
- Proponho o seguinte.
Acompanho-vos na vossa aventura, cedo-vos as minhas habilidades de cartografia
e orientação e em troca, procuramos também a cidade anã, enquanto exploramos as
selvas de Chult em busca da origem dessa maldição que procuram.
- Muito bem! - Hiro
assentiu vigorosamente, enquanto o fazia piscou o olho a Ivan. – o senhor
disse-me há instantes que do pouco que percorreu na selva, já tinha conseguido
cartografar alguma coisa. Poderemos também ver esses esboços?
- Podem sim meus
senhores. - tirei o meu bloco de desenho de um dos bolsos e mostrei os pequenos
mapas e trajetos que tinha já cartografado. - Não é muito, mas é o que me foi
possível cartografar dado os perigos existentes.
O grupo pegou nos meus
esboços e examinou-os durante algum tempo e ao fim desse tempo recusaram a
minha proposta. Alegaram que os mapas não estavam bem desenhados, que a
orientação era falível e que o conteúdo era escasso.
- Amigo! Você chama mapa
a estes rabiscos? Já vi cavalos desenharem melhor e olhe que eles nem conseguem
pegar em pena.
- Não percebo o seu
comentário! E além disso não concordo. Percebe-se claramente no mapa a
localização da cidade e os seus portões e o início da selva.
- Sim claramente! E o
interior da selva? Como são os seus trilhos? Onde passam os caminhos? Os pontos
de referência? - Hiro atirou o caderno de volta à mesa. - Não se percebe
patavina disto senhor! Mas não vamos deitar tudo a perder pois tenho uma nova
proposta para si.
- Muito bem. Sou todo
ouvidos.
- Nós deixamos que o
senhor nos acompanhe na nossa aventura.
- Olhe aí está uma boa
proposta.
- Calma Senhor Kortmorinn!
Ainda não terminei. Nós permitiremos que nos acompanhe na nossa aventura. Claro
que para a fazermos iremos precisar de um guia. Guia esse que você também vai
pagar, irá dividir o custo connosco e ...
- Dividir o custo do
Guia? – inalo mais uma vez pelo meu cachimbo quase apagado, enquanto pondero
tal proposta. - Bem não me parece descabido de todo...
- Mas oiça a proposta
até ao fim senhor! Além de tudo o que já disse, não vai poder usufruir da
partilha de nenhum tesouro que encontrarmos, nem o seu nome poderá ser
associado a qualquer demanda em prol do término da maldição da morte. Como diz
que o seu único objetivo é encontrar a cidade anã, o único espólio sobre o qual
terá direito será a um quinto das riquezas encontradas na cidade anã. Isto, se
encontrarmos tal coisa.
Tentei discutir.
Renegociar. Fazer valer as minhas qualidades de cartógrafo, arqueólogo,
historiador e anão e nada me valeu. Aceitei a proposta que me fizeram. Não é
uma boa proposta, mas foi a única possível.

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