III - A Corrida de Dinossauros

Greengrass, 8.00am

A cidade agita-se numa azáfama que nunca vi igual. Hoje é o dia da grande Corrida de Dinossauros e todas as pessoas acorrem já ao grande coliseu. Apostas são feitas, corredores e montadas avaliadas e muito, mas muito dinheiro movimentado.

A minha corrida é o evento principal de hoje e para preparar o público e criar alguma tensão, irão ainda acontecer duas corridas antes dessa. São corridas simples, de jovens que têm os seus rituais de entrada na vida adulta. Quase como um desafio de combate, uma prova de perícia, força e velocidade e, só o melhor corredor poderá este ano escolher o par com que desposar.

Enquanto aguardo pelo som do gongo posso ambientar-me ao dinossauro com que vou correr. Entro na tenda da Thundering Lizard, desenhado na lona vejo o lagarto azul e branco que tão bem caracteriza a estalagem. No interior, numa box que dá para o exterior, um grande Triceratops espera já selado pelo momento em que finalmente poderá esticar as suas volumosas pernas. Enquanto me ambiento ao animal, o gongo de preparação soa finalmente anunciando a necessidade de levar os animais até Golden Throne, onde terá início a corrida.

Enquanto guiamos calmamente os dinossauros para a partida consigo avaliar os meus adversários. Num Hadrossauro pintado e vermelho e preto segue Alyria, uma Elfa exilada que pouco a pouco começou a correr e agora faz destas corridas a sua profissão. Logo atrás de dele segue Gon o Albino, um anão de Chult de uma antiga linhagem de corredores, o seu dinossauro, um Tiranossauro Rex pintado de branco com um açaime e vários ossos decorativos. A sua passagem provoca-me arrepios, aquele dinossauro é medonho. Atrás de mim vem Boccuaré, Omuan de raça, a sua montada, um Alossauro coberto de estandartes verdes e amarelos. Já no final da fila de marcha, um novato nestas corridas tal como eu, segue um dos aventureiros chegados ontem a Port Nyanzaru. Patrocinado por Wakanga O’tamu monta o famoso Triceratops Feather Doll que tal como em todas as corridas e aparições dos príncipes aparece coberto de penas e estandartes fúcsia, os seus chifres, adornados a ouro carregam a marca do Merchant Prince.

A marcha até à linha de partida segue com alguma celeridade. Os animais estão ansiosos por correr, fechados em gaiolas há demasiado tempo. Colocamo-nos por fim lado a lado atrás da linha pintada. Kwayothe olha com orgulho para a multidão que ladeia as ruas, formando um cordão humano seguindo pelo percurso da corrida até ao Grande Coliseu. As pessoas emitem uma calorosa e murmurada ansiedade enquanto esperam o início da corrida. Após um bater de palmas de Kwayothe, um tenso silêncio faz-se sentir enquanto são mais uma vez recordadas as regras da prova.

Por fim soa uma trompa e a corrida começa. Surpreendido pelo som, a minha montada agita-se e retrocede assustada alguns passos até que a espicaço e incentivo a avançar perdendo logo ao início uma vantagem que me teria sido favorável. À minha frente a competição é já aguerrida, na dianteira vai Gon logo seguido por Alyria. O novato que dá pelo nome de Ivan segue na ponte ao lado de Boccuaré que após o tentar empurrar acaba por cair. Passo assim à sua frente avistando ao fundo o templo de Savras.

Incito a minha montada que se agita novamente antes de se impelir para a frente. No muro em volta do Templo os sacerdotes meditam, inspirados pela energia do povo. Ivan age de forma estranha e vejo-o colocar-se de pé sobre o Triceratops e esticando a mão acaba por roçar nas vestes de um dos sacerdotes ficando com uma estreita faixa de tecido na mão que envolve em redor da cabeça, nisto, espicaça o dinossauro e acaba por desaparecer na curva em direção ao Templo de Gond.

Dobro por fim a curva e vejo vários jatos de água que são disparados para a pista de forma mágica e intermitente. O recém-chegado aventureiro chicoteia o seu dinossauro e passa velozmente pelos obstáculos, eu imito-o, mas após alguns metros sou atingido por um jato de água acabando por cair. Quando retorno à corrida, sou apanhado por Boccuaré que seguia logo atrás de mim e transpomos assim lado a lado os dificultantes jatos de água.

A corrida continua bastante renhida, Gon segue na dianteira logo seguido pelo Triceratops fúcsia e, ambos passam já sob a ponte que leva ao Templo de Sune. Alyria segue à minha frente e ao meu lado Boccuaré já me tentou empurrar várias vezes. Sobre a ponte há uma total confusão de pessoas que atiram papéis flamejantes para a pista e, com alguma dificuldade, consigo desviar-me dos mesmos. Alyria e Boccuaré, no entanto, são atrapalhados pelos mesmos e os seus dinossauros acabam por perder velocidade, fazendo com que fiquem para trás. Incito o meu dinossauro e desta vez parece já saber o que deve fazer impelindo-nos com alguma rapidez. Adiante avisto já mais perto a cauda do Triceratops de Wakanga que tenta com algumas manobras sem sucesso passar Gon e o seu T-Rex.

Atiço novamente o meu Triceratops e consigo surpreender Ivan ficando lado a lado com ele. Aproveitando a minha chegada e a distração de Gon, o novato espicaça o dinossauro ficando ao mesmo nível que Gon. O anão albino vê-se surpreendido e na iminência de poder ser ultrapassado investe contra o outro corredor criando-se um corredor que utilizo para os alcançar.

A fúria de Gon é visível e vendo-se preso entre os dois Triceratops começa a investir para um lado e para o outro na esperança de nos destabilizar a corrida. Nesse momento um enorme enxame de Flying Lizards atinge-nos saindo de um beco à nossa direita. Gon fica para trás enquanto o seu perigosíssimo dinossauro acaba por remover o açaime, ficando para trás a mastigar alguns dos pequenos lagartos alados.  

Saímos por fim de Merchants Ward e a rota traçada leva-nos pela Old City, obrigando-nos a contornar o grande fosso. Seguindo junto a Ivan, sinto-me um pouco mais confiante nas possibilidades de ganhar. Espicaço o meu dinossauro e acabo por escorregar e cair no fosso, quando surge atrás de mim, quase a morder-me, o enorme T-Rex de Gon.

Caído no fosso, dou duas cambalhotas e acabo por me levantar com esforço, por sorte não fraturei nada. Corro para a corda no topo do fosso e é nesse momento que Alyria cai também quase me acertando na queda. Levanta-se rapidamente e com uma grande agilidade e rapidez superiores, acaba por me ultrapassar. Subo a custo a corda e corro para o meu dinossauro, não sem antes ser ultrapassado também por Boccuaré que grita selvaticamente enquanto desaparece à minha frente. Outra vez em último, não pode ser. Incentivo o dinossauro a correr e vejo todos a entrar para o Grande Souk. O grande Bazar de Port Nyanzaru e que se apresenta atolado de caixas, gaiolas e bancadas que praticamente não foram desfeitas convenientemente. À minha frente os meus adversários agitam-se e tentam dificultar a progressão uns dos outros. Vejo Alyria cair quando o seu dinossauro tropeça num conjunto de canoas que foi atirado por Gon. Com tempo, consigo desviar-me e passar à frente da concorrente caída. O dinossauro de Boccuaré para de supetão à minha frente quando se assusta com um bando de Flying Monkeys que Gon também solta. Sem tempo a perder o Omuan salta para um dinossauro que estava preso a uma das bancadas e, soltando-o continua a corrida sem quase perder distância. Sem perceber bem como, o novato continua na dianteira da corrida. Saímos por fim do grande Souk, à minha frente vejo imediatamente Boccuaré que embate contra uma pilha de barris depois de o seu novo dinossauro ter ficado ofuscado com a luz solar direta. Aproveito a distração e passo-lhe à frente.

O Grande Coliseu é já visível ao fundo e eu tenho de me apressar se quero conseguir ganhar algum dos prémios.

Espicaço novamente o Triceratops e alcanço Gon que praticamente me ignora e espicaça também o seu dinossauro, mas não avançando tão rápido quanto deseja. Ivan segue algo nervoso à frente e olha diversas vezes para trás, tentando perceber de onde poderá vir a próxima ultrapassagem.

Depois de uma volta em redor das muralhas, entramos finalmente no Grande Coliseu. O público está ao rubro. Gritos, cânticos tribais e mutas ovações ecoam por aquele espaço.

À frente e a separarmo-nos da linha da meta, uma grande fossa de água apresenta-se como o último obstáculo que decidirá a vitória. O dinossauro de Wakanga perde a velocidade ao entrar na água, já o T-Rex de Gon parece que enfrenta aquele obstáculo de forma mais fácil. O meu Triceratops comporta-se de igual forma que o Feather Doll e sinto que Alyria e Boccuaré a aproximarem-se atrás de mim. Espicaço uma última e derradeira vez a minha montada, mas esta recusa-se a acelerar. Ivan vê-se a ser alcançado por Gon e olhando para trás, acaba por se levantar e ficar de pé em cima de um dos chifres do dinossauro, depois, com uma vénia provocatória feita na nossa direção, aproveita o balanço do animal e salta uma impressionante distância transpondo a linha da meta, Gon chega logo depois ainda montado no seu T-Rex que morde o ar junto da cabeça do recém-chegado aventureiro, sendo pronta e magicamente açaimado por um dos júris da corrida.

Consigo impelir por fim a minha montada e somos os terceiros a cruzar a meta, logo seguidos pelo Omuan e pela Elfa. As pessoas estão ao rubro, bebida é atirada ao ar, gritos selváticos emitidos. Começa já a ouvir-se a confusão e as brigas típicas dos apostadores que perderam dinheiro assim como os guardas que tentam manter a ordem no espaço.

 

Os prémios são por fim entregues. Ao primeiro lugar é atribuído um prémio de 500 peças de ouro, o segundo com 200. Fico a examinar a entrega dos prémios a um canto com os restantes derrotados, mas quando olho em volta, percebo que estou sozinho.

Estes prémios iriam ajudar-me bastante e seriam decisivos para o resto da minha aventura, mas nada correu como era suposto. O mais curioso disto tudo é o facto de ter sido um dos novos aventureiros a ganhar a corrida. Ou o grupo é deveras importante ou houve aqui algum tipo de trama envolvida. Já para não falar do grande patrocínio que tiveram. Isto só me deixa ainda mais curioso para com este grupo.

Enquanto os prémios são entregues, os restantes membros do grupo de aventureiros juntam-se ao seu vitorioso companheiro. Agora seria certamente um grande momento para falar com eles. Vou-me aproximando devagar e é nesse momento que Gon atira a bolsa com o prémio para o chão, indo cair à minha direita. Diz sentir-se ultrajado e enganado e roga algumas pragas enquanto sai irado do coliseu. Aproveito a minha deslocação para ir falar com o grupo e tento apanhar com alguma discrição a bolsa de moedas, mas nesse momento sinto-me a tropeçar e acabo por cair num grande monte de lama. Acabando por ser motivo de riso de todos os presentes e de nem conseguir chegar perto da bolsa. Parto apressado de volta à estalagem de mãos a abanar e sem conseguir sequer falar com Ivan e o resto do grupo. Além disso, o cheiro pestilento da lama onde caí persegue-me pelo caminho de volta.

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